Violência doméstica, auto estima, amor próprio e como sair dessa?

CAPÍTULO XXII

Carnaval de 2001. Aí, a situação fugira totalmente de controle. Fernando não se importava com mais nada e nem ninguém.
Uma noite Fernando chegou totalmente embriagado e Esther tivera que tirar as crianças de casa para que ele não as machucasse. Então fora impossível continuar escondendo o drama que vivia provocando o desprezo e a ira de D. Helena que não mais suportava o sofrimento da filha.
Na última semana de carnaval, Fernando ficara quatro dias sem voltar para casa. E na quarta-feira de cinzas por volta das três da tarde, chegou em casa com uma roupa que Esther não conhecia. Entrou como se nada tivesse acontecido. Esther estava destruída; não comia e nem dormia direito, tamanha sua angústia. Tentara ser forte:
— Oi, meu amor! Você veio me buscar? Vamos sair um pouco? – perguntara, tentando ser natural.
Ele sorriu sarcástico e sua voz mais pareciam flechas cravadas uma a uma no coração e na dignidade daquela mulher.
— Nem pensar. Estou exausto! Só quero dormir. Faz de conta que ainda não cheguei. Ah! E vê se não deixa criança chorar.
Esther chegou a sentir dor física, tal agressão daquelas palavras. As lágrimas já faziam parte do dia-a-dia. Fernando dormiu o resto da tarde. Às nove, acordou e pediu que o jantar fosse servido. Esther o fizera sem encará-lo. Tinha os olhos inchados e sua aparência era de um ser cadavérico.
Ele fez a refeição em silêncio e pouco depois voltou a dormir.
Os dois dias seguintes fora ainda mais distante.
E na sexta-feira, mais uma vez, não voltou para casa. Chegou às cinco da manhã do dia seguinte e limitou-se informar tão somente que viajaria com os amigos para o interior.
Esther não suportou e explodiu:

— Chega, Fernando! Não suporto mais o que está fazendo. Como pode ser tão cruel? Desumano? Escute bem! Você não sairá desta casa para ir a lugar algum, entendeu?
Fernando tentara sair, ela o agarrou e ele enlouquecido pela cólera a esbofeteou sem piedade. Uma prima de Esther vira a cena e sem demora D.Helena explodira em insinuações que deixavam claro nas entrelinhas que Fernando a traía. 
Sua confusão psicológica era tão grande que não suportando a verdade tão óbvia, saiu correndo sem direção. Andou horas... Tomou uma condução sem saber direito para onde iria. Nem percebera que estava indo para São José de Ribamar, onde vivia seu pai que há anos não o via.
— Última parada! A senhora não vai descer?
— O que? 
— A senhora está bem? – perguntou o motorista preocupado, pois Esther não parecia bem.
Só então se dera conta de onde estava; era a orla marítima da cidade balneária que no domingo ficava repleta de turistas e a comunidade local. Olhara em volta, tantos rostos, tantas histórias, não era capaz de lembrar a última vez que estivera naquele lugar tão lindo. A igreja de frente para o mar, a gruta no alto de uma colina era seu lugar favorito. Lá em cima o vento soprava com mais força contra o rosto; força esta que ela já não tinha. Ela olhava... tudo meio grogue, o sol queimava a pele branca, sentia sede e uma enorme vontade de sumir.
Foi até o quebra mar que avançava mar adentro. Chegando bem no final debruçara-se na grade de proteção, os soluços estremeciam seu corpo. Lá em baixo o mar parecia calmo, sereno. Por um momento Esther pensara embalar-se em seus braços e esquecer seus “ais”. Inconsciente do perigo, subira na grade; quando alguém a puxou pelo braço...
— Ei, não faça isso! Nada pode ser tão irreversível a ponto de não valer a pena viver. Olhe a sua volta, quanta beleza! Você mesma é muito bonita e jovem ainda. Lute, mude o que a está fazendo sofrer. Não desista da vida! Em algum lugar tem alguém que vai sentir muito se você desistir agora.
Aquela voz era tão doce, as palavras tão incisivas. Esther chorava de tal maneira que nunca soubera quem fora seu anjo que naquele momento a salvara da morte. Sentindo-se envergonhada, saíra correndo sem olhar para trás.
Ela usava um vestido longo, branco que de leve insinuava seu corpo ainda belo. O vento batia contra seus cabelos que esvoaçavam no ar, parecia mais uma visão saída dos mares, da imaginação de um pescador em noite de lua cheia.
Caminhara por muito tempo, tudo estava diferente aos seus olhos; parecia irreal.
Afastou-se do centro e chegou a uma alameda. A rua era estreita, com casas de muros altos e grandes árvores ao longo das calçadas. Aquela visão transmitia calma e proteção, tudo que ela não tinha no momento. Não lembrava qual daquelas era a casa de seu pai, mas seguiu seu instinto e bateu palmas em uma delas, a mais simples. Quando avistou seu pai, irrompeu.
— Como senti sua falta! Durante toda vida quis um abraço, a sua presença, sua proteção. Mas não conheço tais emoções. Na verdade não nos conhecemos. Porque me deixou quando eu era ainda menina?
Seu António estava bem mais velho, os cabelos estavam repletos de fios brancos. Já andava meio encurvado pela idade e pelo peso de suas culpas. Pela primeira vez confrontava-se com uma verdade que ele procurava não lembrar-se e agora ela vinha como um turbilhão rompendo em lágrimas, dor e mágoa.
— Minha filha, o que houve? O que faz aqui sozinha tão longe de casa?
— Me deixa ficar aqui, só quero ficar longe de tudo. Sei que não me conhece, tampouco o conheço, mas chamo pelo pai que não tive e que você não foi quando deveria ter sido.
Ele abriu os braços e a acolheu. Finalmente Esther recebera o abraço tão sonhado...
Sentados à sombra de uma mangueira, Esther deitou-se no colo do pai que desejara na infância e chorou até ser vencida pelo cansaço e adormeceu entre espasmos de soluços.
Seu pai a olhava e sentia-se o mais miserável dos homens por não tê-la amado, protegido, mas agora já era um velho carcomido pelo tempo, macambúzio e fraco, nada mais poderia fazer... E também chorou suas culpas...
Esther só voltou para casa à noite e soubera que Fernando saíra após ela.
Ruth chorava reclamando a falta do peito. Sem nada dizer, a tomou nos braços e a alimentou, lamentando por ter deixado sua filha com fome e sede. Esperou por Fernando toda a noite e no dia seguinte já passava das dez horas quando resolvera ligar para ele.
— Fernando, precisamos conversar.
— Ah! Já apareceu, sua louca!
— Precisamos conversar.
— Não! Não precisamos mais. Não vou voltar para casa.
— O que? Você não está falando sério está? E as nossas filhas?
— Vão continuar sendo minhas. Vou ajudá-las, mas à distância...
— E eu?
— Te vira! 
Dizendo isso, desligou sem que ela pudesse protestar.
 Não! Não! Gritava jogando no chão tudo o que suas mãos alcançavam, quebrara pratos, xícaras e tantas outras coisas, entrou em seu quarto deu um soco no espelho que ao se quebrar golpeou-lhe o braço causando-lhe uma lesão muito feia. Sentiu apenas o líquido quente escorrer pelo braço, ao perceber que estava ferida, passou a mão pelo rosto, o sangue jorrava de maneira assustadora. Tudo girou, Esther desmaiou se ferindo ainda mais nos cacos de vidro espalhados pelo chão. D. Helena entrou e a visão de sua filha caída no chão banhada de sangue era uma visão grotesca.
Imediatamente ordenou que chamassem Susana e Lúcia.
Quando elas chegaram, Esther já havia recobrado os sentidos e estancara o sangramento. O sentimento era de revolta e Susana não se conteve.
— Sua piranha vadia! Porque você não morre de uma vez? Sofre por um canalha que te trai, humilha e maltrata! Pensa nas tuas filhas, já que não tens amor próprio.
Essas palavras foram ditas com requintes de crueldade por Susana. Esther não esboçava nenhuma reação, apenas as lágrimas denunciavam seu estado de espírito. 
Tinha a morte na alma e uma palidez cadavérica. Lúcia a olhava incrédula e visivelmente abalada se aproximou, a tocou de leve na face e a abraçou, soltando um gemido da alma, embalava o corpo inerte em seus braços, queria fazê-la parar de sofrer. Era terrível ver a irmã tão linda, num estado tão deplorável, desumano...
À tarde, mais calma com o braço envolto em panos encharcado de sangue, resolvera ir até a unidade de saúde. Michael agora com sete anos presenciara a tudo e não se afastara da mãe. Até quando fora para o hospital ele a seguiu. Esther perdera imediatamente os movimentos dos dedos anelar e mínimo da mão direita. Seria encaminhada para uma outra unidade para submeter-se a uma cirurgia.
Pediu à enfermeira que deixasse seu Michael na entrada da rua, não poderia levá-lo consigo. Já era noite quando fora liberada, sentia-se mais só do que jamais se sentira em toda sua vida. A vergonha e a dor do abandono a consumiam como um corrosivo poderoso avançando a galopes.
Pediu na recepção do hospital que ligassem para Fernando e tudo que ouviu foi:
— Ele já saiu! Não pode atender agora. Ligue mais tarde!
E novamente...
— Ele já saiu. Boa noite!
Ela voltou para casa pedindo carona. O braço imobilizado, a mão inchada e uma dor horrível. Ao chegar a casa, descobriu que não poderia pegar sua filhinha no colo.
Não pronunciava uma única palavra com ninguém, afundara-se num mundo triste e obscuro. Apenas chorava, aprendera amar aquele homem e não acreditava que ele não mais voltaria, mesmo embriagado no meio da madrugada.
É penoso ver como um ser humano, dotado de inteligência e livre arbítrio, é capaz de abandonar-se a outro em busca de afeto; ás vezes perdendo o respeito por si mesmo.
Essa era a triste figura de uma mulher entregue a solidão e ao abandono.










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